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  • Foto do escritorJornalista Adriana Dias

Açaí: o ouro negro amazônico produzido em Passos

Os elementos tinham tudo para dar errado. Açaí é uma planta que apenas dá frutos na região amazônica; o interessado em plantar é engenheiro civil e não agrônomo; a área a ser plantada fica em Passos, no Sul de Minas e não no Amazonas. Todo tipo de adjetivo o produtor rural Marco Antonio Natale ouviu, desde os mais pejorativos até os de descrédito. Mas, nada disso o impediu de tentar e, conseguir. Nos próximos meses (junho, julho e agosto) a colheita de açaí, o ouro negro amazônico já será realidade. Lembrando que o Pará é o maior produtor de açaí do Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em 2020.



Wenceslau de Oliveira e Mirian Barbosa de Oliveira

Marco Antonio Natale recebeu a equipe da Agronotícias na área de plantio e contou que a inspiração e confirmação de que este cultivo daria certo aconteceu há quase 20 anos.


“Meu sogro, Wenceslau de Oliveira trouxe mudas do Pará, tentou o plantio na Fazenda Cachoeira, na Linha do Bananal. Alguns pés produzem há 15 anos, então, se aqueles pés produzem, eu vou me dedicar e plantar. Há seis anos comecei os estudos e a trazer mudas do Pará, as primeiras vieram de avião. Trouxemos inicialmente 200 mudas e perdemos muitas, afinal não sabíamos sobre como seria o plantio, sobre irrigação. Por falta de conhecimento, investimos muito, e, consequentemente, perdemos muito”, contou.


As mudas estão plantadas em uma área de 3 hectares, sendo em média 1.800 pés. São cerca de 6 mil mudas de açaí, com previsão de plantio de outros 4 hectares, em área mais protegida de geada. As plantas são dispostas em fileiras de cinco metros entre uma e outra e quatro metros entre uma planta e outra.


Do plantio para a primeira colheita são 5 anos, sendo que cada pé tem dado em torno de quatro cachos cheio de frutos, o que é considerado raro. Normalmente é um cacho por pé, sendo que cada muda tem em média três pés.



As mudas são as cultivares da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Amazônia Oriental. São elas a BRS Pará e a BRS Pai d’Égua. “Minha maior felicidade, além do fato de ver estas plantas produzindo, é por conta das críticas que sempre me apontavam para o impossível. Não é só o trabalho e só o investimento, a gente acaba tendo envolvimento que gera até mesmo carinho por toda essa plantação, e ver o que aconteceu com a geada deste ano, foi destruidor em todos os sentidos”, assegurou.


Com relação à geada, Natale explicou que foi um aprendizado e deu para descobrir quais pontos da fazenda onde afeta mais a plantação, mesmo sabendo que a intensidade da geada que caiu é rara de acontecer.


“Como a plantação de açaí é para nossas próximas gerações, ainda bem que este fato aconteceu no início e todo nosso investimento é com recursos próprios, sem qualquer tipo de financiamento. Em 20 anos meus filhos já estarão contando com a produção, pois os frutos ainda estarão produzindo”, explicou. Em três meses já terá a colheita de frutos, mas, comercialmente, em larga escala será em 2023.


“De 4 a 5 anos o açaí começa a produzir, mas não se pode considerar o que estou falando, pois trata-se no meu caso, e atípico. Tive que plantar do zero para chegar nesta situação. Esse aqui vai demorar seis anos, mas os que for plantar a partir de agora serão em quatro anos, pois levou o tempo de pesquisas, erros e acertos”, assegurou.


Sobre o tipo de irrigação Natale contou que é usado gotejamento e microaspersor por estar com um diâmetro maior.

“Neste caso como sou engenheiro civil já entendo mais, em relação a tudo o que tive que estudar sobre agronomia”, orientou.


Questionado sobre o agrônomo que nasceu com ele junto com esta plantação, Natale explicou que aprendeu muito. “Sempre fui um apaixonado por plantações, vem desde criança. Só que nunca fiz como negócio. E, porque plantar açaí? Acordou e resolveu plantar este fruto? Não. Cheguei num momento na vida que não queria mais trabalhar, já havia me dedicado muito em obras Brasil afora. Fiquei dois meses parado, mas logo me vi buscando algo a fazer. E, um dia, conversando com meu sogro, Wenceslau de Oliveira, havia plantado alguns pés aqui. Temos tanta terra a gado, e existe ociosidade.

Produz açaí o ano todo e se o nativo da Amazônia produzem aqui, estas mudas desenvolvidas pela Embrapa vão produzir com mais facilidade. O que ele plantou perdeu praticamente tudo há 20 anos, pois não tinha pesquisa nem tecnologia. Ele tentou sem irrigação, só meia dúzia que está plantada do lado da represa com irrigação natural. Observei o erro que ocorreu com ele e aproveitei a experiência.

Não sou tão apaixonado assim por este fruto. Mas aprendi comer no Pará e nem é desta forma que se come no sudeste do país. Comem salgado, tomam no lugar de leite e é muito diferente do que usamos aqui, que só tem 25% de açaí no produto que utilizamos”.


O açaí será transformado em poupa na cidade, já estamos em processo de construção do espaço. Vai ser processado, congelado e vendido. Financeiramente é viável. “É uma mina de ouro. O açaí é conhecido como o ouro negro. Precisa falar mais? Não é degradante para o solo. 90% é orgânico. Sobre pragas não há uma específica. Tem uma lagarta marrom que dá no milho ou na soja e que pode afetar a plantação de açaí. Mas fora isso, nada. Previsão de quantos anos um pé de açaí permanece vivo e produzindo, é algo em torno de 90 a 100 anos. Então é uma cultivar rentável. Seus filhos são uma arquiteta e dois administradores de empresas. “São empolgados, pois sabem que um pé de açaí se der um cacho dariam 5 quilos por pé de poupa, isso a cada 3 meses. Cada hectare vai dar em média R$90 mil por safra, sendo que são três safras anuais. A média de preço do açaí no Pará gira em torno de R$10. Existe negócio melhor? Só tenho a mão de obra de um funcionário para irrigação e um para a limpeza da área, sendo um trator e a limpeza mais específica na área do pé”, finalizou.

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